quinta-feira, 7 de maio de 2020

Massagem nos pés

Nesta semana do dia das mães, quero compartilhar com vocês um texto que escrevi como atividade em um curso que fiz com a querida Ana Holanda no final do ano passado.

O QUE APRENDI COM MASSAGEM NOS PÉS
Quando vou a massagista logo aviso: “Demore bastante nos pés porque eles gostam muito". Eu adoro. Dizem que todas as partes do corpo estão representadas nos pés.  Por isso, talvez, o bem estar geral que tal massagem provoca.
Há alguns meses passei um tempo morando com minha mãe, que ficou doente. Um dos incômodos causados pela doença foi a friagem nos pés. Para aquecê-los , antes de calçar-lhe as meias de lã,  passei a fazer uma massagem com creme.
Minha mãe sempre foi uma mulher muito reservada em relação aos sentimentos. Ela era daquelas pessoas que nunca tomavam a iniciativa do abraço e, quando se via abraçada, demonstrava um certo incômodo e logo dava um jeito de fugir do laço. Abraço de 30 segundos com ela? Nem pensar.
Foi, portanto, com surpresa (minha e dela) que a ouvi dizer o quanto era gostosa aquela massagem e que nunca lhe haviam feito algo semelhante.
- Como assim? – pensei eu – aos 82 anos nunca tinha tido o prazer de uma massagem nos pés?
Ela gostou tanto, que passou a me pedir todos os dias, mesmo que os pés não estivessem frios.
O interessante é que o prazer foi mútuo.  Fez -me tão bem massageá-la! O prazer daquele toque , que mal nos permitimos por anos. O cuidado, o contato, que ela nunca me confiou.
Aqueles pés sustentaram nossas vidas, minha e dela. E mais! Suportaram o sustento da família, nas caminhadas diárias até o ponto do ônibus para ir ao trabalho e dele para casa, todos os dias, religiosamente, por anos a fio. Pés que a firmaram em pé,  em ônibus lotado, com sacolas nas mãos. Pés sempre elegantemente calçados com sapatos de saltos em uma altura que eu jamais usarei, mas que para ela era natural.
Pés que foram base para ela, como base ela foi pra mim.
Foi pelos pés que nos reencontramos, que redescobrindo nosso contato, nossas carícias perdidas de mãe e filha. Foi pelos pés que ela entregou, finalmente, a responsabilidade de seu cuidado a mim.
No hospital, pouco antes dela parar de respirar, eu olhei seus pés que haviam saído para fora do cobertor. Senti-me culpada porque havia esquecido de lhe cortar as unhas.

Luciane Madrid Cesar
SP 07/12/2019


9 comentários:

  1. Lu, adorei essa visão dos pés como base da vida. Muito bacana que eles possibilitaram o aprofundamento da relação de carinho físico e cuidado com sua mãe.

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  2. Que bom que Deus lhe permitiu esses momentos de aproximação com sua mãe!

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  3. Que lindo essa possibilidade d vc ter esse carinho c sua mãe,enqto massageava,uma transmissão d energia positiva era passada a ela.

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  4. Passamos muito tempo preocupados com muitas partes do nosso corpo, mas esquecemos dos pés. Pés que nos levam ao encontro de quem amamos. Nos levam ao trabalho, aos desafios de uma vida futura.
    Pés que representam toda uma história de segurança e magia.
    Pés que nos fazem descobrir a importância do outro.

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  5. Parabéns pelo belíssimo texto. Muito legal mesmo. Me senti até massageado nos pés. Acho que a massagem mais relaxante que existe é a nos pés, pois muitas vezes as dores do corpo estão concentradas neles.
    Parabéns!!! Adoro seus textos!!!

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  6. Marileia Naves de Avelar Faraco9 de maio de 2020 às 12:18

    Me emocionei com o seu relato, minha amiga-irmã, e só consegui me lembrar do seu ombro e do seu silêncio quando a minha mãe se foi tão precocemente. Palavras eram desnecessárias e o seu silêncio foi poesia. Muiti obrigada!

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    1. Foi muito marcante pra mim. Ela era uma mãezinha pra mim, longe da minha.

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  7. Quanta emoção em suas palavras. Lindo!

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