domingo, 5 de julho de 2020

Felicidade existe?



Segundo Odair José (quem se lembra dele?), em sua música “A noite mais linda do mundo”, - felicidade não existe, o que existe (...) são momentos felizes. 
Bem mais poéticos, Tom e Vinicius cantaram que
 A felicidade é como a gota/ de orvalho numa pétala de flor:/ brilha tranquila, / depois de leve oscila/ e cai como uma lágrima de amor.
(Em minha opinião, uma das imagens poéticas mais lindas já escritas). 
Tenho na memória uma tarde de sábado: minhas filhas, muito pequenas, desenhavam sobre a mesinha de centro sentadas no tapete; meu marido lia o jornal na poltrona a minha frente e eu, com um livro, acomodava-me no sofá. A casa tinha as divisões de cômodos que eu desenhei, por muitas vezes, nos meus cadernos do colegial. O bairro era arborizado e tranquilo e tínhamos um carro na garagem (simples, pois nunca desejei luxo nesse quesito). Lembro-me bem desse dia por causa da sensação de plenitude que me invadiu. Olhei a cena como um observador externo e pensei:  minha vida está completa. Perfeita. Tudo com o que sonhei estava ali, materializado. 
Foi essa imagem que acessei quando, tempos depois, estudando Programação Neurolinguística, precisei buscar nas minhas recordações um momento em que tivesse me sentido totalmente feliz. Muita coisa aconteceu depois disso e pensar naquele tempo, hoje, me causa muita saudade. O que tento acessar, entretanto, quando penso naquele sábado, é um lugar dentro de mim que guardou a sensação de total enlevo vivida na ocasião.  Eu acho que esses momentos de puro êxtase ficam guardados em nós para sempre em um compartimento da alma. A correria, a ansiedade e a visão negativa que nos assaltam no dia a dia, não nos deixam ver esse cantinho mágico. Aprender onde ele está dentro de nós é, eu acredito, a chave da felicidade permanente. 
Naquela época, eu tinha medo dessa felicidade que eu sentia. Achava que ninguém podia ser tão feliz assim. Ninguém que eu conhecia se dizia feliz desse jeito. Eu achava que o Universo tinha me permitido essa felicidade suprema porque algo de muito trágico iria acontecer em minha vida no futuro. 
Hoje entendo os ciclos da vida, o vai-e-vem que alterna alegrias e angústias. Hoje sei me permitir. Aprendi o caminho desse quartinho da felicidade dentro do meu coração.  Quando a coisa está feia, procuro entrar nele e pescar um desses momentos de magia. Nem sempre é fácil, confesso. Sou teimosa e desaprendo com frequência. Mas quando consigo, tudo fica um pouco mais leve. 
A filosofia Budista ensina que tudo passa, tanto a felicidade quanto a dor. E, apesar do nosso querido poeta ter afirmado que a tristeza não tem fim , eu ouso contestar poetizando:
A tristeza também é uma gota /de orvalho, que cintila ao luar/pranto da aurora/que, ao sol, logo evapora/ e a alegria volta a brilhar...
(com certeza Tom e Vinícius, lá de cima, me inspiraram nessa...) 

Vocês se lembram dos momentos de suas vidas, em que experimentaram essa felicidade de perder o fôlego? Vale a pena buscar essas lembranças para sentir, de novo, aquele calorzinho gostoso no coração. Que tal? 

13 comentários:

  1. Entrar no "cantinho" e pescar momentos bons. Isso ajuda muito.
    Mais um belo texto! Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Que texto ótimo e o fechamento perfeito.

    ResponderExcluir
  3. A "poetada" a lá Vinícius fechou com chave de ouro mais um texto lúcido e singelo. Doce.

    ResponderExcluir
  4. O corretor acentuou o "la". Desculpe. rs

    ResponderExcluir
  5. Você está cada vez melhor! Parabéns!

    ResponderExcluir
  6. Concordo com a crônica. A felicidade e a tristeza são potencializadas uma pela outra. Cabe a nós decidir qual delas alimentar, qual delas sentir, qual delas enfrentar. Com o tempo aprendi que não podemos por a felicidade em coisas materiais, em posses, em status e sim podemos encontrar e sentir a verdadeira felicidade num abraço, num carinho, num afeto, no ouvir um amigo que precisa de ajuda. Coisas materiais podemos ter e perdê-las em seguida e aí a possível felicidade da conquista se transformará em tristeza ou em angústia ou até mesmo em depressão. Já o bem praticado, jamais deixará de ser esquecido e pode ser revivido e relembrado sempre e aí a felicidade sempre voltará ao coração de quem praticou o ato. Felicidade e tristeza caminham juntas e para mim, sempre será muito mais fácil ser e fazer alguém feliz do que triste.
    Parabéns Luciane por mais esta bela crônica. Sensacional. Adoro os seus textos, aprendo muito com eles pois me levam a reflexão sobre os assuntos abordados neles.

    ResponderExcluir
  7. Comungo dos sentimentos tão bem expressos nessa crônica, porém ..."eu tinha medo dessa felicidade que eu sentia" foi a parte que mais me tocou. Explico: eu , às vezes, me sinto assim também, não porque não tenha momentos tristes, mas porque aprendi o valor da felicidade contida nas pequenas coisas, em fugazes momentos,como esse que agora escrevo: um banho de sol após um delicioso almoço.Parabéns pela crônica.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim. Com o tempo a gente entende melhor a dança da vida. Obrigada.

      Excluir