Dia desses alguém me disse que encontrou uma amiga minha no supermercado e me perguntou: “Ela ainda está morando aqui na cidade?” Respondi que não sabia, que fazia tempo que não falava com ela. “Mas vocês não são amigas, não ligam uma para outra?”
Esse questionamento, com surpresa na voz, disparou em mim uma reflexão.
Em minha infância e adolescência, ouvia, quase diariamente, a reprimenda: “Telefone é só para dar recado, olha o tempo da ligação! A conta vai vir um absurdo!” Era uma época diferente, quando os impulsos telefônicos eram muito caros e a situação financeira bem ruim. Ainda assim, eu ficava horas e horas com minhas amigas, só batendo papo. Minha mãe ainda lembrava: “Deixa pra ligar à noite, depois das oito, que é mais barato!” e eu respondia: “Não se preocupe, foi ela que ligou” – o que nem sempre era verdade, mas me garantia o aval para falar mais uns minutos.
Outra coisa comum na minha casa eram declarações do tipo: “Estou com saudades de minha prima. Acho que vou ligar perguntando da filha que fez prova de concurso, assim aproveitamos para conversar...” ou “Fulano ligou. Acho que o que ele queria era perguntar se a gente ainda morava aqui perto do irmão dele...” Ou seja, telefonar para alguém tinha que ter um objetivo prático além da simples vontade de falar com a pessoa. Era o telefone para dar recado. Telefone para fazer um convite. Telefone para informar um falecimento.
Talvez a vida em São Paulo faça isso com as pessoas... Moradores das metrópoles, escravos da objetividade. Ou eram os tempos difíceis, de muita economia e pouca disponibilidade para jogar conversa fora... Não sei. Mas noto que ficou uma marca muito forte em mim. Tornei-me avessa ao telefone. Resolvo o que posso por escrito, seja por e-mail, messenger ou whatsapp.
Sei bem como isso restringe a espontaneidade de uma conversa. E eu ainda presa aos conceitos aprendidos lá atrás... É claro que um pouco de timidez e a facilidade que tenho em me expressar por escrito são ingredientes importantes, também, para esse meu comportamento tão pouco telefônico.
Mas perceber nossas limitações é o primeiro passo para vencê-las. Estou no caminho.
E confesso que adoro quando alguém me pergunta: “Posso te ligar?”

Verdade Lu.O celular serve pra tudo menos para fazermos ligações. Só de vez em quando. E tbm adoro quando me fazem essa pergunta?!?!👏👏👏 Parabéns!!
ResponderExcluir❤😊
ExcluirBela reflexão Luciane. Me remeti aos tempos de criança também onde a saudade, a busca por notícias ou qualquer outra situação era motivo para irmos ao telefone e ligarmos para as pessoas distantes, amigos e parentes que não víamos com certa frequência. Me recordo muito de usar aquelas fichas de orelhões e não saber quanto tempo elas durariam...no melhor da conversa, terminava a ligação e não tínhamos mais fichas. Era raiva na certa......rs
ResponderExcluirMas tudo muda, tudo evolui e hoje temos os telefones celulares...facas de dois gumes que ao mesmo tempo que nos dá essa possibilidade de entrarmos em contato com quem quisermos praticamente em tempo real, também nos permite sermos localizados e as vezes até incomodados em circunstâncias em que não queremos que isso aconteça.
Mas o ruim hoje em dia é que essas novas e avançadas tecnologias de comunicação nos fazem perder o valor da conversa em família, do sentar à mesa, ouvir a esposa, os filhos, compartilhar boas e más situações, etc.
Sou a favor de que se quando for se sentar à mesa para qualquer refeição, fosse proibido levar o celular para a mesa, devendo o mesmo ser deixado em algum lugar e só retirado após às refeições.
Sim, nada como o papo ao vivo.
ExcluirSou bem parecida com você nesse aspecto. Não curto falar ao telefone. No meu caso, não sei exatamente de onde vem isso.
ResponderExcluirCostumo fazer ligações com objetividade, precisa ter um motivo real para ligar.
Quando é para bater papo não funciona pra mim... me causa um incômodo enorme!
O tempo gasto ao telefone também conta... algumas pessoas gostam de ficar horas e horas falando, meu marido é assim.
Um abraço!
Cada um tem um jeito . Abraço
ExcluirMe lembro de quando aguardava ansiosamente ligar para uma colega que havia se mudado pra Uberlândia e na hora ficávamos as duas sem dizer nada que o valha a saudade que tínhamos uma da outra, o quê não acontecia com as cartas, que por vezes ficava difícil de fechar o envelope. Cheia de histórias vividas e muitos, muitos decalques e apliques. Lembrei-me também das nossas cartas trocadas depois de 9 anos separadas pela sua mudança pra São Paulo. Saudades!
ResponderExcluirVdd, Leia. Trocamos muitas cartas. Foi manter esse contato que acabou me fazendo ir morar e TCoracoes!!
ExcluirSim, por favor, ligue quando quiser.
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