quarta-feira, 22 de abril de 2020

Puxando minha própria orelha.



Hoje fui ao supermercado. Munida de máscara e óculos escuros, dei sorte e não peguei fila para entrar. Havia pouca gente, menos que o limite permitido para a quarentena. Na porta, um funcionário mediu minha temperatura no pulso (eu nem conhecia esse tipo de termômetro) e  ofereceu álcool em gel para higienização.
Senti-me em um filme de ficção cientifica. Só que não do jeito bom, cheio de tecnologias... Daquele jeito onde tudo piorou e a liberdade de ir e vir não exite mais. E essa é uma situação recorrente: escritores e roteiristas apenas antecipam em suas obras um futuro que, certamente, virá.
Andando pelo supermercado, achei o ambiente extremamente escuro. Pensei: "será que estão economizando energia com medo da crise econômica?" Ao cruzar com outra cliente, ela comentou:
- Essa máscara atrapalha a visão, né?
E eu pensei: "não é a mascara, é a luz do supermercado que está fraca!"
Continuei circulando pelos corredores fazendo minhas compras e reclamando mentalmente da iluminação do lugar. Já estava mesmo disposta a ir falar com a gerência quando, ao acaso, levei a mão ao rosto e percebi o problema: eu estava com os óculos de sol!!!
Apesar de todas as mudanças que ocorrem no mundo, os Seres Humanos mantém seus vícios. Um deles é julgar sem avaliar os argumentos. É o que a gente mais faz. É o que sempre se fez. Emitir julgamentos é, na verdade, uma estratégia de defesa de nossa mente para nos avisar de perigos. O problema é saber quando e como julgar. Na maioria dos casos corriqueiros, julgamos sem necessidade e sem elementos suficientes para emitir um veredicto.
No caso dos meus óculos, embora não tenha destratado ninguém por causa de um erro meu, senti-me envergonhada pelo julgamento precipitado que gerou um monte de impropérios (ainda que não ditos) a pessoas que não tinham a menor culpa. Marshall B. Rosenberg, em seu livro Comunicação não violenta, nos diz que a observação é a primeira coisa que devemos fazer antes de qualquer interação consigo ou com outro. No meu caso, a interação foi comigo mesma e gerou um estado de irritação que era desnecessário. Nesse mesmo livro ele cita o filósofo indiano J. Krishnamurti: "observar sem avaliar é a forma mais elevada de inteligência humana".
O trajeto que minha mente seguiu nesse episódio é, com certeza, um caminho muito comum para todos nós: percebemos algo errado e logo emitimos um julgamento, muitas vezes responsabilizando uma outra pessoa. É aí que os conflitos começam.
Sai do mercado com as compras na mão e o pensamento em penitência. Por pouco não corri até a gerente e me desculpei com ela e com todos os funcionarios. Iriam me achar maluca, não é mesmo?

4 comentários:

  1. Sensacional. Parabéns!!!?

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  2. Muito bom. É muito comum termos a mesma reação. Felizmente vc mesma se analisou e percebeu o qto poderia ter causado um mal estar. Parabéns pelo texto.

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  3. Julgamentos...
    Julgamos e somos julgados o tempo todo.
    Porém o pior, é quando julgamos, quando achamos que somos detentores da verdade e damos o veredicto sem analizar. Esses somos nós, seres egoicos,na maioria da vezes incapazes de avaliar a nós e o contexto.
    Mais um texto no qual me identifico.

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  4. Acho que os julgamentos são necessários. Nos ajudam. O que pesa é a condenação. A emissão do parecer. Este deve esperar até que todas as questões sejam postas em análise. Estamos na verdade vivendo uma crise de excesso de condenações sem as tratativas do julgamento necessário. Belo texto!

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