Um amigo querido, de infância, que não via há anos, deixou a Terra neste último sábado. Notícias como essas nos pegam desprevenidas e mexem com nossa estabilidade emocional. Fazem-nos lembrar que a vida aqui é finita e imprevisível. Como diz o ditado popular: “viva como se você fosse morrer amanhã. Um dia você acerta!”
A morte de alguém reverbera dentro de nós, acordando as lembranças de todos os lutos já vividos. Todos os funerais que passamos, especialmente os dos mais queridos, voltam à memória.
Uma amiga querida, que perdeu o pai também neste sábado, mencionou a hipocrisia dos velórios. Eu já pensei dessa forma. Não gostava de ver as pessoas conversando e rindo do lado de fora da sala, agindo como se fosse uma festa. Evitei esses eventos por muito tempo. Além disso, achava que os enlutados nem percebiam muito bem quem estava lá, tão envolvidos estavam com sua dor, portanto eu não faria falta.
Até que perdi minha mãe. Descobri, então, que todo ritual para velar um corpo, embora de origem religiosa, é, na verdade uma vírgula, uma pausa necessária para a mente se acostumar com a perda. Enquanto o corpo está ali, ainda que sem vida, a gente tem tempo para processar o ocorrido, com direito a viver a dor em seu mais profundo significado. E receber o carinho das pessoas de nossa rede de amigos e conhecidos. Nada como abraços para aconchegar a tristeza com seu respectivo consolo.
Acontece que, em tempo de quarentena, esse momento que nos permite sofrer no aconchego do carinho amigo nos está sendo negado. Não sem motivo, claro. Precisa ser assim. Mas imagino o quão mais dolorosos são os óbitos nesta época. De forma abrupta, o corpo sai do leito de morte direto para o cemitério. Sem pausa, sem respiro...
Uma médica, que atua em cuidados paliativos, falou sobre isso, dia desses, numa live: a dor parece que dói mais, machuca sem bálsamo.
Mas... o ser humano é adaptável. E a palavra de ordem, em 2020, é reinventar. Para amenizar a perda de sua mãe, uma amiga de um grupo de whatsapp que participo, recebeu de nós pequenos vídeos transmitindo palavras de carinho e força. As mesmas que diríamos se fossemos ao funeral.
E a família deste meu amigo, que mencionei no começo, criou o que se pode chamar de velório on line, uma solução muito interessante nesses tempos de contatos virtuais. Marcaram uma homenagem pelo aplicativo zoom e, depois de uma oração de abertura, cada participante, se desejasse, falava um pouco sobre sua relação com o homenageado. Foi lindo e emocionante. Acredito que ouvir cada amigo falar de seu ente que partiu fez, guardadas as devidas proporções, o papel do abraço de condolências e deu a família a pausa tão necessária para administrar esse momento doloroso.

Oi Luciane, mais uma vez parabéns pela maravilhosa crônica. Seus textos nos levam a reflexões sobre os mais variados temas. e este de hoje, a morte, é um dos mais complicados de se falar, pois tem diversos nortes. Há quem entenda determinada morte como o fim de um sofrimento(descanso), há quem entenda como o fim de um ciclo e início de outro ciclo. Uma coisa é certa como você disse em seu texto: ela é certa e a vida muito imprevisível. Desta forma, devemos aproveitar a vida da melhor maneira possível, levando a todos que nos cercam somente amor, carinho, respeito, verdades, sentimentos verdadeiros e sermos a presença de Deus na vida dessas pessoas.
ResponderExcluirNão sou fã de ir em velórios e sepultamentos, mas os vejo como uma oportunidade de se prestar solidariedades, força, carinho aos entes da pessoa falecida. Infelizmente com essa pandemia não estão sendo permitidos velórios, saindo o féretro direto para o cemitério. Foi preciso uma nova adaptação e se reinventar uma nova maneira de se fazer um "velório" (sem o corpo presente) e se prestar solidariedade aos familiares. Um aspecto positivo que eu vejo nesse "velório virtual" é a possibilidade da participação de alguém que está tão distante e que, fisicamente seria inviável a presença.
Você esteve ao meu lado por ocasião do falecimento da minha mãe. Na época você morava com a gente quando começou a faculdade. Foi a minha pior experiência. Depois disso senti que me "embruteci" um pouco e passei a ver a morte como um bálsamo para o sofrimento que todos passam antes que morte chegue, mas às sempre me surpreendo, sentindo um nó na garganta com a despedida de alguns amigos e familiares. Como foi com este nosso amigo querido. O seu texto revirou de novo estes sentimentos que por vez decantam no fundo da alma e precisa ser cutucada de vez em quando pra nos lembraramos da nossa "humanidade".
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