domingo, 1 de novembro de 2020

Pobre ou Sustentável?

 


Meus pais tiveram uma vida difícil, com privações financeiras durante a infância e juventude. Aprenderam cedo o valor das pequenas economias. Poupar recursos, reutilizar, transformar... A criatividade estava sempre em alta na hora de guardar o dinheiro suado conquistado com muito trabalho. 

Assim, se o papel de presente saía inteiro ao desembrulhar a lembrança de aniversário, por que não guardar com cuidado para o mesmo uso ou para encapar meus cadernos no próximo ano letivo? 

A esponja de cozinha, cortada em duas, preservava a mesma eficiência, multiplicada. O saquinho de pão era perfeito na pré-limpeza da louça engordurada, economizando água e sabão, e ainda evitando que a gordura entupisse o ralo da pia. 

Nas mãos habilidosas de minha mãe,  restos de lã e linha viravam colchas, bolsas, enfeites para blusas. As roupas, muitas vezes ganhas de outros membros da família, eram consertadas sempre que possível e transformadas, conforme necessário. Já tive vestido longo de festa que se transformou em curto para o dia-a-dia e depois virou camisola. Meu pai tinha a regra de tirar uma camisa para doar sempre que ganhava uma nova.

Meu pai... alma criativa, vocação para inventor, criava várias soluções domésticas com reciclagem. Da redinha plástica que envolvia a dúzia de laranjas no supermercado, ele fazia uma bucha para tirar os resíduos de alimentos nas panelas; latas de óleo eram cortadas e transformadas em porta-guardanapos e porta papeis de limpeza – os saquinhos de pão que já mencionei; ripas de madeira, que serviam para enrolar tecidos nas lojas, se transformavam em molduras para os quadros que ele pintava; até as telas de pintura eram, muitas vezes, partes de caixas de frutas ou prateleiras de moveis antigos.

Sacos de lixo? Não! Usávamos folhas de jornal que, colocadas da forma certa, viravam um pacotinho para jogar na lixeira do prédio.

Meus pais não sabiam, mas eram pioneiros na atitude sustentável. Éramos, já naquela época, uma família Lixo Zero. 

Nos primórdios da internet, corria um texto divertido que começava assim: “você sabe que é pobre quando: usa copo de requeijão pra beber cerveja, usa garrafa pet para guardar água na geladeira...” e por ai vai, uma lista de atitudes consideradas, na época, depreciativas. Hoje poderíamos criar lista semelhante, com muitos dos itens que constavam nessa outra, mas com o vocativo: “Você sabe que é sustentável e respeita o meio ambiente quando...”

Outros tempos, maior consciência nas ações de consumo e respeito ao planeta. Ações, porém, que não deixam de ajudar a poupar uma boa grana, como me ensinaram meus pais!


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Posso te ligar?


 Dia desses alguém me disse que encontrou uma amiga minha no supermercado e me perguntou: “Ela ainda está morando aqui na cidade?” Respondi que não sabia, que fazia tempo que não falava com ela. “Mas vocês não são amigas, não ligam uma para outra?”

Esse questionamento, com surpresa na voz, disparou em mim uma reflexão. 

Em minha infância e adolescência, ouvia, quase diariamente, a reprimenda: “Telefone é só para dar recado, olha o tempo da ligação! A conta vai vir um absurdo!” Era uma época diferente, quando os impulsos telefônicos eram muito caros e a situação financeira bem ruim. Ainda assim, eu ficava horas e horas com minhas amigas, só batendo papo. Minha mãe ainda lembrava: “Deixa pra ligar à noite, depois das oito, que é mais barato!” e eu respondia: “Não se preocupe, foi ela que ligou” – o que nem sempre era verdade, mas me garantia o aval para falar mais uns minutos.

Outra coisa comum na minha casa eram declarações do tipo: “Estou com saudades de minha prima. Acho que vou ligar perguntando da filha que fez prova de concurso, assim aproveitamos para conversar...” ou “Fulano ligou. Acho que o que ele queria era perguntar se a gente ainda morava aqui perto do irmão dele...” Ou seja, telefonar para alguém tinha que ter um objetivo prático além da simples vontade de falar com a pessoa. Era o telefone para dar recado. Telefone para fazer um convite. Telefone para informar um falecimento. 

Talvez a vida em São Paulo faça isso com as pessoas... Moradores das metrópoles, escravos da objetividade. Ou eram os tempos difíceis, de muita economia e pouca disponibilidade para jogar conversa fora... Não sei. Mas noto que ficou uma marca muito forte em mim.  Tornei-me avessa ao telefone. Resolvo o que posso por escrito, seja por e-mail, messenger ou whatsapp. 

Sei bem como isso restringe a espontaneidade de uma conversa. E eu ainda presa aos conceitos aprendidos lá atrás... É claro que um pouco de timidez e a facilidade que tenho em me expressar por escrito são ingredientes importantes, também, para esse meu comportamento tão pouco telefônico. 

Mas perceber nossas limitações é o primeiro passo para vencê-las. Estou no caminho.

E confesso que adoro quando alguém me pergunta: “Posso te ligar?”


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O óbvio precisa ser dito


 Estava eu, dia desses, na fila do supermercado, quando uma senhora chegou perto de mim e, olhando nos meus olhos, falou através da máscara: “Ela vai voltar. Você vai?” 

Olhei para trás e para os lados para ver se era comigo mesmo. Era. Achei, então, que ela podia ter-se enganado, me confundindo com alguém com quem já estivesse conversando antes - porque a frase que me disse só podia ser a continuação de uma conversa... Enfim, não tive outro jeito senão dizer: “Desculpe não entendi” - ao que ela retrucou: “Você não é minha colega na ginástica? A professora vai voltar às aulas...” 

Só então a luz do entendimento passou por mim! Minha dificuldade em reconhecer fisionomias, aliada a máscara que encobria seu rosto não me permitiram identificar, de pronto, a companheira de exercícios. Ela, por sua vez, parece ter continuado, com a fala, algo que havia iniciado em pensamento.

Quantas vezes já fiz isso? Penso coisas e, ao falar, presumo que o interlocutor captou toda a ideia pensada. Às vezes, acho graça da situação e esclareço a conversa. Pior é quando me irrito por não obter compreensão. Isso é muito comum nas relações com familiares e amigos, quando a intimidade torna tudo permitido. 

Uma variante desta situação tem a ver com a expressão de nossas vontades. Temos o hábito de achar que todos a nossa volta pensam, agem e gostam das coisas da mesma forma que nós. Então, consideramos dispensável explicar o que, para nós, é totalmente claro. E isso acaba causando muitos desentendimentos. Presumir que a pessoa entendeu o que eu pretendia exprimir com determinada palavra ou gesto é abrir a porta para possíveis mal-entendidos.  Pode-se, inclusive, causar problemas dolorosos e de longa duração. Quantas amizades se desfizeram sem que um dos envolvidos nem soubesse o porquê? Anos mais tarde, as coisas se esclarecem, mas o mal já foi feito. 

Na posição de receptor da mensagem, às vezes me pego incomodada com a quantidade de explicações que alguém me dá. Olhando por esse ângulo, melhor explicado demais do que entendido de menos.

O óbvio precisa ser dito, se se quer ter certeza de que a mensagem foi compreendida. A clareza na comunicação é, indubitavelmente, nossa melhor ferramenta para a paz no cotidiano.

No futuro, quando a ciência descobrir uma forma de ler pensamentos e pudermos saber, exatamente, o que se passa na cabeça de nossos semelhantes, resolveremos este problema. Mas, com certeza, criaremos alguns outros... Assunto para uma próxima crônica.


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Florescer


 Minha amiga e professora de yoga Raphaela (@casadosolyoga), em sua aula na semana passada, nos perguntou: - Como é a pessoa que você deseja ser?

Isso me levou a uma viagem no tempo. Lembrei-me do início de minha vida adulta, quando tinha na cabeça, exatamente, a mulher que eu queria ser no futuro. 

Aquele futuro chegou e eu sou, em termos gerais e com algumas modificações, aquela mulher que idealizei. Por isso, quando me foi jogado tal questionamento, assustei-me por não saber o que imaginar.  Sensação terrível essa de já ter alcançado o objetivo traçado na juventude – nunca pensei que diria isso algum dia - e não ter o que almejar. Estacionei na vida e agora vou ficar na janela vendo a banda passar?

Minha querida amiga e professora de dança Maria Inês (@convivarte) mencionou ontem a analogia da vida com o jogo “Resta um” (aquele com os pininhos, que se joga sozinho): só é possível jogar se faltar um pino. Ou seja, só há movimento, no jogo e na vida, quando não se está completo. Parar para pensar sobre isso pode ser a diferença entre viver por viver ou dar um colorido todo especial a nossa existência. Entre vegetar ou florescer.

Desfrutar da plenitude das metas cumpridas e desejos realizados é ótimo por algum tempo. Mas, segundo alguns especialistas, fomos feitos para a ação. Mover o corpo, a mente, a alma. Mover o coração... Parar é estagnar-se. Porque a vida não para nunca. E o status quo de ontem, já não satisfaz hoje e estará ultrapassado amanhã. 

A mulher que almejei ser é ótima para o presente, mas já não servirá para um futuro em que a idade avança, a tecnologia chega, os netos talvez venham... 

Por isso é preciso florescer a cada primavera. A flor que se abriu neste ano não é a mesma que surgiu ano passado, embora igualmente bela.

Meu dever de casa, portanto, é criar a imagem, como fiz há muitos anos, da mulher que desejarei ser daqui para frente.  E florescer, plena e realizada, mais uma vez.

Você tem ideia da pessoa que deseja ser nas próximas estações?


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A alegria que reside no olhar


 

Hoje recebemos uma visita ilustre. Um magnífico tucano. Do alto da bananeira do terreno vizinho, ele olhava o mundo com altivez. Seu bico, de um alaranjado dégradé brilhante, estilo propaganda de lápis de cor ou, mais moderna, de TV 8K, luzia ao sol das onze horas. Ficou por ali, tranquilo, posando para as fotos que eu me apressei a tirar. Estivemos nessa brincadeira por uns dez minutos, até que ele alçou voo e foi encantar outras paragens. Deixou-me aqui, cismando com meus botões.

Esse terreno ao lado de minha casa, repleto de árvores frutíferas, provoca em mim, com frequência, uma certa indignação pelas frutas não colhidas deixadas a apodrecer. Sentimento oriundo dos resquícios da cidadã da metrópole, onde comer fruta direto do pé é um luxo comemorado com efusão. Extasiada pela visão do pássaro bicudo de olhos azuis, caí em mim: foram as frutas maduras que o atraíram, assim como fazem a tantos outros emplumados multicoloridos que alegram as minhas manhãs. Passarei a olhar o pomar, de agora em diante, de maneira mais bondosa. 

Dia desses uma amiga se auto qualificou como “metódica chata”. Perguntei: - Por que chata? Disse-me que muitas pessoas não veem com bons olhos quem é extremamente disciplinada. Retruquei que há, na mesma medida, pessoas que consideram disciplina e método uma virtude (eu, por exemplo, corro atrás dessas faculdades). Tudo depende do modo como se enxerga. Melhor escolher as avaliações positivas para usar como parâmetro.

Minha mãe e minha tia eram pessoas muito diferente. Quando saíam juntas, enquanto a primeira, ansiosa, ficava de olho na estrada e no relógio, a irmã, mesmo dirigindo atentamente, não deixava de apreciar o ipê florido à margem da estrada ou a beleza da lua que surgia. O prazer de viajar não era um sentimento que compartilhavam. Mas, acima de tudo, olhavam a vida por ângulos diversos.

Ao longo de minha existência, fui treinando o olhar. Ou será que fui destreinando? Vivemos acostumados a procurar, antes de tudo, a utilidade das coisas. Mas não acho que nasçamos assim. Parece-me que o natural, o instintivo, é procurar a beleza. A vida civilizada vai nos endurecendo e deixamos de enxergar com a alma para ver só o que os olhos alcançam. E, com um pouco mais de civilização, esses mesmos olhos só enxergam o feio, o ruim, o difícil. Do que é belo, só o que for também útil. A mente passa a dominar o olhar e o coração se retira. Os olhos da alma vão perdendo a luz e a vida vai perdendo a graça. É preciso resgatar o encantamento da criança que sopra seu primeiro dente de leão, que molha pela primeira vez, os pés na água do mar. Ele ainda está dentro de nós, como num pique-esconde, esperando ser encontrado.

Mesmo em caminhos pedregosos, o modo de olhar a paisagem, a escolha de pontos de vista diferentes, tornam a caminhada mais colorida e muito mais leve.

“Os tristes acham que o vento geme, os alegres, que ele canta” (atribuído a Luís Fernando Veríssimo ou à sabedoria popular)

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Mal na foto, bem na vida

 



Ontem eu estava organizando fotos antigas. Não as que estão guardadas num pendrive. Refiro-me às impressas em papel fotográfico, daquelas nos obrigavam a ter muita paciência para esperar a revelação do negativo e só assim ver como ficaram. Lembro-me que quando o filme era de 36 poses, às vezes, demorava muito para terminar. Sim, porque a gente economizava o máximo. Era tão caro todo o processo que só se batia fotos nos momentos mais importantes. E eram umas poucas, com todo o cuidado para que ficassem bem, tanto no enquadramento quanto nos modelos. Ainda assim, muitas vezes, saiam algumas com cabeças cortadas ou, o que é muito pior, poses horrorosas. Quem nunca teve uma foto em que apareceu falando ou fazendo careta? E aquelas de festas, que a gente sai mastigando ou numa posição pra lá de comprometedora? Se a foto fosse nossa, era só rasgar e ficava tudo bem. Mas se o tal retrato fizesse parte do álbum de casamento de sua prima, melhor fingir que não era você! 
Com as fotos digitais também pode acontecer tudo isso, mas como hoje se tira muitas e muitas fotos sobre um mesmo tema, é só deletar a imagem problemática e postar as que ficaram bem.
No tempo das fotos em papel, o nosso ideal de vida perfeita vinha das novelas da TV. Descendentes diretas dos contos de fadas, eram nosso parâmetro de felicidade.  Ter a roupa da protagonista x, comprar um sofá igual da sala da personagem y, ser bem sucedida como a heroína ou ter todos os nossos desafetos sofrendo as punições impingidas aos vilões, no último capítulo, faziam parte de nossos planos para o futuro. 
Hoje, o modelo de mundo perfeito não depende de roteiro. Salta aos olhos e ouvidos nos vídeos do YouTube, nos stories do Instagram. A internet tornou-se um novo teledrama das oito, mas sem hora para acabar. O fotoshop e outros aplicativos simulam uma perfeição que não existe na vida real. Ainda assim, corre-se o risco de que aquela foto que flagrou você com a empada na boca possa estar rodando por aí na rede social de alguém.
Felizmente, o que traz problemas também oferece a solução. A mesma internet tem possibilitado uma mudança de atitude. Muita gente real está postando o seu arroz que queimou, o penteado que não deu certo ou o corpo cheio de dobras e flacidez. É só procurar. 
A verdadeira mudança, porém, tem que estar em nós mesmos. Entender que a perfeição é relativa e depende de padrões estipulados que mudam conforme a época e a cultura, é libertador. Se soubéssemos disso anos atrás não teríamos rasgado tantas fotos... 
 Rir das próprias gafes, aceitar-se como ser único, valorizar as inúmeras perfeições fora dos padrões que todos nós temos, é o caminho para felicidade. Simulacros de precisão estética e funcional estarão sempre ao alcance de nossos olhos. Cabe-nos identificar seu valor tornando-os metas ou descartando-os de pronto. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Padrões e reflexões

 


Ana Carolina canta “toda mulher gosta de rosas, de rosas, de rosas...” Na primeira vez que ouvi essa música, senti-me excluída. Rosas não são minhas flores preferidas. Gosto mais de orquídeas, margaridas e tantas outras. Lembro-me que, quando era jovem, sonhava em receber um buquê de flores do ser amado, coisa que só foi acontecer muitos anos depois. Mas optar por rosas estava diretamente ligado à TV e suas propagandas de casais apaixonados - um padrão pré-estabelecido. Tive uma colega que detestava quando o namorado mandava enormes buquês para ela no serviço. Ele fazia isso com frequência e sempre dava briga.

 Chico Buarque canta “todo dia ela diz que é para eu me cuidar/essas coisas que diz toda mulher” e eu penso: o que vem primeiro, a ideia de que toda mulher diz isso ou sua real vontade de dizer?

Você já deve ter ouvido que shopping (ou cabeleireiro) é o terapeuta da mulher, assim como o bar (ou o futebol) é o do homem. E como fico eu, mulher, que detesta fazer compras e ir ao salão de beleza, mas adora um boteco e um jogo?

Quantas outras coisas eu não me encaixo, ou, se me encaixo, é de forma imperfeita, por que fui ensinada que assim devo agir? 

Quais atitudes e preferências, na minha vida, são padrões aprendidos e quais são, realmente, a expressão da minha essência?

E mais: quando me sinto satisfeita com algum comportamento meu, estou expressando o que tenho em meu interior ou apenas feliz por agir em conformidade com o que se espera de mim?

Não é só na questão de gênero que os padrões nos afetam. Você talvez já tenha sido cobrada, em sua juventude, por não ter arrumado um emprego ou um cônjuge. E, se casada, pelo filho que ainda não veio. Só uma criança? E a segunda? Ou ouvido frases que comecem com “você já tem idade para...” e depois de alguns anos “você não tem mais idade para...” Ufa!!

 Somos tão diversos, homens e mulheres, e os padrões da sociedade só servem para nos reduzir e limitar. Difícil é se libertar deles...